Capítulo III: Desistir é uma opção?
Com as coordenadas em mãos, o marujo some pelas áreas obscuras das ruas, onde o brilho da lua não conseguisse bater nele. Seus pensamentos voltam-se para um desejo incompreensível de vencer o desafio. O espírito competitivo tomou conta dele. Acha que quanto mais rápido fosse, seria melhor já que quando voltasse, iria pegar a próxima carga de peixe. Os pescadores iriam pescar naquele final de semana e queriam a embarcação para os peixes na quarta-feira. Sendo dessa forma, queria provar o quanto antes que conseguiria cumprir o desafio e sair ileso.
Harry tinha uma visão da navegação como terapia e uma espécie de orgulho. Sempre seguindo os passos de Rick Taylor, um velho velejador e seu professor, que morrera a alguns anos, sabia todas as rotas e como livrar-se de uma assustadora tempestade. Rick era realmente impressionante. Possuía um conhecimento dos mares e céu que podia deixar muitos de boca aberta.
Assim que chegou em frente a sua pequena casa, abriu a porta abruptamente e entrou. Viu seu pai a jogar 21 com outros três homens e bufou um pouco revoltado. Seu pai – Sam Styles – era completamente viciado em jogos de azar e ele odiava isso. Depois de sua mãe ter desaparecido sem motivo algum quando ele era somente uma criança, o pai que já metia-se em jogos, passou a ser um viciado miserável de cartas.
Para sair da sua terrível realidade, o Styles mais novo passou a maior parte da sua adolescência acompanhando o Rick nas viagens, a aprender mais e mais sobre coordenadas e astronomia. Hoje em dia, as únicas coisas que enchem seus olhos são poder e conquistas.
Sem o amor fraterno, ele pensa que nunca será capaz de amar alguém. Como poderia amar se nunca foi amado nem pelos próprios pais? Era angustiante aquele sentimento, ele sabia, mas o que poderia fazer? Seu coração foi cavado em profundezas absurdas, era um poço vazio de escuridão e quem entrasse nele não sairia vivo nunca mais.
— Já chegou, Harry? — Seu pai soltou surpreendido pela presença do filho em casa tão cedo assim.
Ignorando completamente seu pai, Styles entra debaixo do chuveiro. Era uma novidade a cidadela ter água encanada. Essa inovação chegou há pouco mais de um ano. Harry amou isso. Ele sentiu a água cair sobre sua cabeça enquanto tentou esfriar os pensamentos. Acredita que, de qualquer modo, ir para a tal aventura talvez seja bom para sair da terrível e enfadonha rotina. O mar é o seu melhor companheiro, e isso será realmente relaxante.
O pai mora com ele pois o resto de piedade que lhe resta obriga-o a sustentá-lo e suportar seus comentários estúpidos – afinal de contas, é sua única família. Não é como se ele odiasse o pai, mas esconde uma certa mágoa. Ele sempre tentou impressioná-lo, porém nunca recebeu o devido apoio fraterno e isso é o que lhe magoa, o fato de não ser motivo de orgulho para alguém que antigamente era seu super herói. Quer provar ao seu pai que fará algo grande, e encontrar Eroda é algo a altura.
Após terminar o banho, veste uma calça de moletom limpa, – uma vestimenta que poucos tinham naquele lugar – antes de ir para o seu pequeno cubículo, ou como é popularmente conhecido, quarto. Depois de voltar do banheiro, percebe que os amigos do seu pai já foram-se. Pensa em perguntar porque o jogo havia acabado tão rápido, mas seus devaneios são interrompidos por algo que não desejaria ter ouvido.
— Filho, não invente de ir para Eroda, você nunca mais voltará se for. — Sam aconselha sentado no banco da mesa, onde arruma as cartas.
— Como sabe disso? — O marujo indaga friamente.
— Quem não sabe que você aceitou o desafio de ir para Eroda? Por que foi aceitar uma coisa dessas? Não achei que você fosse burro para fazer isso. — O pai joga as palavras com seriedade na voz.
— Não venha com sermões. Durante toda a minha vida, nunca ouvi um conselho e agora quer vir controlar o que devo ou não fazer. Por favor, não faça os meus ouvidos escutarem essas asneiras. — O de cabelos cacheados balbucia com uma carranca e vai na direção do quarto.
— Filho, você não entende. — O Styles velho murmura e levanta-se. Harry dá meia volta e com toda raiva acumulada, tenta controlar-se para não fazer nenhuma ação precipitada.
— O que não entendo? O fato de você ter virado um viciado ou o de minha mãe ter me largado à própria sorte? — Interroga sarcasticamente, com a voz um pouco alterada.
— Você era novo demais para entender.
— Dane-se. Esse tempo todo eu tentei entender, juro que tentei, mas o cara que era meu tudo hoje não passa de um encosto. — Harry esbraveja e pergunta-se lá no fundo como tudo isso pôde ter ido tão longe.
— Eu... — O marujo o corta.
— Não preciso das suas explicações. — Seu pai parece desarmado, sem argumentos.
— Só te peço que não vá. Há uma maldição que a rodeia, por isso, me escute: desista do desafio. — Aconselha mais uma vez, a olhar no fundo dos olhos de Harry, mas ele está bravo o suficiente para não dar-lhe ouvidos.
— Desistir para depois ser uma vergonha e ter mais desprezo seu? Não, não desistirei do desafio. E quer saber? Irei hoje mesmo atrás daquela ilha. Provarei que tenho competência. — Diz tudo de uma única vez e com rapidez, organiza suas coisas dentro de uma bolsa saindo dali, batendo a porta com demasiada força.
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