PLAYLIST DO MOMENTO: 21': primeiro ano do E. M.

 

O primeiro ano do ensino médio começou com pano no rosto. Após estudar em casa por um ano, eu fui para uma nova escola e senti-me muito deslocada. Muito além da nova rotina, eu tive que aprender a pegar o meu ônibus, a fazer novos vínculos e a saber onde ficava minha sala.

Lembro que os primeiros dias foram assustadores e é simples explicar que foi devido ao inevitável medo do novo. Medo de não me encaixar e de que ninguém gostasse de conversar comigo.

Porém gosto de guardar em minha mente todos os momentos que minha eu de catorze para quinze viveu. As memórias genuínas e açucaradas. Foi aqui que adquiri experiências peculiares, vivi os meus quinze como desejei.

É nostálgico recordar que eu acordava às cinco e trinta, arrumava-me e tomava meu café sem açúcar com biscoito maizena (acompanhado de geleia de uva durante alguns meses) e ia para o ponto do ônibus, ao fim da rua. Às seis e trinta tomava o ônibus escolar e colocava minha playlist para tocar. Pela janela, eu via o automóvel cortar a cidade. Às vezes parava, gente entrava, gente descia, fechava a porta, voltava a fazer seu trajeto. 

Quase uma hora completa depois, eu descia. A entrada sempre estava apinhada de gente. Eu ficava por ali, acanhada. Os fones sempre pendurados nos ouvidos.

O primeiro dia de aula foi muito estranho. Minha sala era silenciosa e ninguém foi lanchar nesse dia. Uma cena que guardo é quando um dos professores perguntou: "de onde vem a vida?" e um garoto respondeu "e os alienígenas professor? De onde eles vieram?" e eles começaram a discutir sobre isso por alguns minutos. De imediato pensei: "aqui só tem gente com um parafuso a menos".

Meu primeiro contato mais sólido para o início de uma amizade foi na aula de educação física. O professor fez um jogo do milhão e eu falei pela primeira vez com a garota que se tornaria minha melhor amiga na escola. Foram três meses até esse primeiro contato. Depois disso fomos nos tornando cada vez mais próximas.

Minha vida fora da escola estava movimentada de ideias. Eu estava escrevendo um romance no computador do governo, estudando para seletivas de uma olimpíada internacional e conversando com minha melhor amiga sobre música, livros e a crisma. 

No meio do ano alguns episódios ocorreram. Lembro que fiquei obcecada por um garoto que tocava no ônibus e que tinha levado um osso para a escola, também foi na época que teve um sarau na escola e eu e minha amiga da escola montamos um cordel e recitamos para todo mundo da escola três vezes - até ganhamos uma barra de chocolate por isso. Nesse meio tempo também comecei a jogar baralho com umas meninas que se tornariam minhas amigas mais tarde.

Foi um período de muito aprendizado. Superei o receio que sentia das pessoas da escola e fiz muitas conexões novas.

Mais para o fim do ano vivi coisas engraçadas. Minha turma duplicou de tamanho e tive contato com novas pessoas, fiz novas amizades. Uma delas começou após eu perguntar o que ela ouvia no fone de ouvido. A outra foi através de uma peça que comecei a escrever para o dia dos professores. Nessa época descobriram que eu amava escrever e essa amizade ajudou-me a compor a peça. Nossa primeira conversa foi no chat do google docs. Passamos pelo menos umas duas horas trabalhando juntos e conversando por lá. Descobrimos muitas coisas um sobre o outro.

Inclusive, essa peça foi muito interessante de fazer. Além de escritora, fui a diretora da peça. Ensaiei com o pessoal que iria ter papel relevante, além do pessoal de apoio. No dia da apresentação, a luz acabou em uma cena impactante, o que tornou tudo mais memorável.

Em dezembro eu era uma nova pessoa. Diferente da que adentrou o ensino médio, eu estava confiante, encarando os desafios que me eram colocados e dedicando-me ao que eu acreditava ser o melhor para mim. Para selar isso, cortei meu cabelo (que estava enorme) na altura do queixo. Queria mostrar essa transformação de forma física em mim.

Não sei se tem uma lição por trás de tudo isso, mas gosto de pensar em amadurecimento. Tudo o que contei aqui foi apenas um recorte desse ano intenso. Teve muitas outras partes, partes onde senti-me frustrada, cansada, ansiosa e revoltada. Mas todas elas tiveram o seu papel para que hoje eu lembrasse das que aqui escrevo com mais saudade e capricho.

Essa playlist 21' é representada nesse texto de vivências. 

Uma garota de quinze anos fazendo mudanças e experimentando a sua maneira as primeiras pinceladas do ensino médio. 



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