Dezembro. Interclasse. Segundo ano do ensino médio.
Cheguei por volta das sete e dez na escola. Naquele dia, eu iria jogar futsal com as meninas da minha sala contra uma turma rival nossa, o segundo ano “a”.
As meninas da minha turma queriam cair fora, mas eu e minha amiga conseguimos convencer pelo menos cinco delas a irem à luta.
Fui também porque estava morrendo de curiosidade a respeito de uma troca de mensagens que tive com um colega de classe, Tom.
Nossa conversa foi mais ou menos assim:
“Olá, Tom falando
Duvidinha rápida
C vai pra escola segunda ou terça?”
Ele nunca havia me enviado uma mensagem e, quando vi, estranhei de imediato. Mesmo assim o respondi:
“Oi, vou nos dois dias.
Por que?”
Ele me respondeu três horas depois.
“Ah, que isso. Qualquer informação seria uma quebra de contrato.”
E se eu já estava na fase de estranhamento, com isso entrei em uma nova fase: a de curiosidade.
“Contrato?”
Continuei, tentando convencê-lo a contar mais. Queria entender o motivo, mas ele decidiu manter o mistério com:
“É meio difícil entender as coisas que eu falo as vezes
Mas não se preocupe não
Te vejo amanhã”
Então, assim que pisei os pés no perímetro da escola, olhei os quatro cantos disfarçadamente, procurando por ele.
Eu queria saber o que ele queria comigo. Deixar uma mulher curiosa é um ultraje!
Sem localizá-lo, encontrei-me com a minha amiga e fomos para a frente da nossa sala, no primeiro andar, esperar pelo pessoal.
Passamos um tempo por lá, até que avistei de cima ele chegando junto com seu amigo.
Fiquei onde estava, vendo se ele iria subir para falar comigo, porém ele ficou embaixo. Continuei conversando com minha amiga, até que ela disse:
— Viu se Samuel já chegou? Preciso falar com ele. Ele disse que seria o nosso técnico.
— Chegou. Eu vi ele chegando com Tom. — Informei. — Estão lá por baixo. — Continuei.
— Perfeito. Vamos atrás dele.
Descemos as escadas e, por sorte, o avistamos sentado em um dos bancos do corredor. Infelizmente ele estava sozinho. Nenhum sinal de Tom.
— Samuel! Preciso falar contigo. — Minha amiga avisou, sentando-se ao seu lado.
— Iae! Vamos ganhar hoje, né? — Ele disse, sorrindo para nós.
— Se você for o nosso técnico. — Minha amiga diz, sorrindo também.
— Ah, Tom quer falar contigo. — Samuel diz em minha direção. — Vou avisar a ele que você tá aqui. — Informa, antes de sacar o celular e digitar alguma coisa.
— Sabe o que ele quer comigo? — Indago-o, tentando ter uma prévia.
— Na hora certa você vai saber. — Samuel me devolve, enigmático.
Reviro os olhos.
— É sério isso?
— Ele pediu segredo, senão eu te contava. — Tenta se safar, dando de ombros. — Mas vamos ao que interessa, como ganhar do segundo ano “a”.
Ele se volta para a minha amiga, que seria a capitã do jogo, e começa a mostrar o que devemos fazer, rabiscando uma tática no caderno que ela fez questão de emprestar.
Enquanto isso, eu olhava para o fim do pátio, na esperança de Tom aparecer e acabar com a minha curiosidade.
Depois de muita espera, vejo-o apontar. Ele veste sua jaqueta preta costumeira, mesmo numa manhã de calor de trinta graus.
Sua despreocupação me causa estranheza.
Assim que ele chega perto de mim, abre um sorriso sarcástico, que quase me dá vontade de atacá-lo só por ter me feito esperar tanto.
— Bom dia! — Saúda a ninguém em específico, mas logo seus olhos caem em mim.
Eu respondo ao seu cumprimento. Minha amiga também, porém sem prestar tanta atenção nele.
— Bem, provavelmente você está curiosa do porquê te mandei mensagem perguntando se viria hoje. — Ele começa, a mão direita por dentro do lado esquerdo da jaqueta.
— É provável. — Eu digo sarcástica, cruzando os braços e lançando-lhe um olhar defensivo.
— É porque eu queria te dar isto.
Ele diz tirando de dentro da jaqueta um livro de capa branca. Imediatamente franzi o cenho, achando estranho tudo aquilo.
— Me dar? — É a única coisa que consegue sair da minha boca. Uma pergunta, em incrédula entonação.
— Sim. Pensei na melhor forma de te agradecer por ter me ajudado um tempo atrás. E por que não com um livro? Já te vi lendo vários por aí. — Ele gesticula, o livro ainda em sua mão, estendido para mim.
Eu o pego, aceitando o inusitado presente.
— Obrigada! — Agradeço e dou uma pequena risada, ainda em descrença.
Minha mente busca uma situação em que eu possa o ter ajudado, contudo, não consigo lembrar de nada significativo.
— Por nada. — Faz quase uma reverência em minha direção.
— Mas no que eu te ajudei? Poderia dizer? Eu realmente não consigo lembrar. — Peço-o, sendo sincera.
— Você falou uma coisa para mim que me ajudou em uma situação. Não preciso entrar em detalhes, mas foi importante o que você me falou. — Diz, continuando enigmático.
— Tudo bem. Fico feliz que o que eu te disse te ajudou. — Respondo-o, respeitando sua recusa em me dizer no que o ajudei de fato.
— Preciso ir. Cuide bem dele por mim. — Pede.
— Pode deixar.
Dou-lhe um sorriso, enquanto ele se afasta.
Olho para a capa branca do livro, que a propósito é capa dura, e leio o seu título: “Mythos”.
“Bem a cara dele, essa coisa de filosofia, seres mitológicos”. Penso e dou mais um sorriso.
Guardo em minha bolsa com cuidado, sentindo a minha curiosidade ser trocada por um sentimento estranho de ser definido, mas que eu diria que se parece com algo como encanto e brilho.
A certeza que tenho é que lembrarei desse momento pelo resto da minha passagem neste mundo, por tudo o que foi e não foi dito. Pela sensação que sua recusa em me contar no que o ajudei causou. Pela importância que minhas palavras alguma vez teve na vida de alguém.
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