Fecho meus olhos e tudo o que vejo é a visão da biblioteca. O cheiro de livro velho e o vento do ar-condicionado me fazem respirar bem fundo, guardando a aura em meu peito.
Lá fora faz um tremendo sol de tarde de primavera. Quente, caótico e ardente. Aqui dentro tudo está calmo e refrescante.
Tenho apenas dez minutos para decidir minha próxima leitura.
Vagueio lentamente pelos títulos, que já escrutinei tantas vezes antes.
Vejo primeiro "O cortiço". Lembro de uma review do youtube, onde o cara fala em 5 minutos toda a história dessa trama e o quanto é movimentada e repleta de cenas inapropriadas. Não sei se quero me debruçar em algo do gênero no momento. Não sei se estou pronta, na verdade.
Meu dedo desliza pelo próximo: "O homem que calculava". O professor de matemática já comentou uma vez sobre ele e, pasmem, eu também amo matemática. Tenho muita curiosidade neste, contudo, também tenho receio de ser uma leitura difícil para somente 15 dias.
Não entendo por que só temos 15 dias para ler qualquer livro, quando nem todos os leitores têm o mesmo ritmo, costume ou tempo.
Folheio a obra, passando as páginas com o polegar na borda e suspiro - definitivamente não conseguirei ler em 15 dias.
Penso em tudo que tenho que fazer, nas provas, nos trabalhos para concluir.
Largo-o onde estava e olho rapidamente para "A hora da estrela". Um livro curtíssimo, que já li e não entendi... ou pelo menos não por completo.
Reflito se quero pegá-lo de novo. Toco sua lateral, mas desisto.
Perambulo mais a fundo pela biblioteca. Chego até ao final, perto do sofá azul. Vejo um garoto deitado no sofá, o braço sobre os olhos. Ele com certeza não veio para ler, e sim para tirar um cochilo limitado de 10 minutos.
Balanço a cabeça em negação e volto-me para a última estante. Naquela era onde existiam os livros mais velhos do acervo.
Não velhos apenas por causa do ano de publicação, mas de vezes que mais foram consumidos. Boa parte deles tinha a capa rachada ou rasgada em algum ponto.
Passo a vista a partir da prateleira mais alta, só parando quando encontro um livro perdido da minha autora preferida: Agatha Christie.
Pego "Um corpo na biblioteca". Um livro na versão de bolso, edição de 1978. Capa amarela. Não leio sequer a sinopse, sei que vou levá-lo.
Direciono-me ao bibliotecário - que minha amiga, quando vem, não entende nem três palavras do que ele diz.
Entrego-lhe o livro e digo-lhe que quero reservar, junto ao meu nome completo.
Ele dá baixa e me entrega de volta, junto a um "Boa leitura".
Quando cruzo a porta de vidro, o sinal toca.
Bem na hora.
Sinto o sol bater em meu rosto e uso o livro como aparador de luz.
É, foi uma boa garimpagem.
Comentários
Postar um comentário
Obrigada pela leitura! <3