I: A Sexta-Feira 13

— 𝟙𝟛 𝕕𝕖 𝕒𝕓𝕣𝕚𝕝 𝕕𝕖 𝟚𝟘𝟙𝟠 —


A ventania levava para longe as secas folhas cor de cobre enquanto as nuvens pesadas e cinzas de chumbo enfeitavam a aura de uma sexta-feira treze.

Para alguns, aquele parecia ser um dia assombroso e azarento; para outros, um dia qualquer; tinham aqueles que amavam a expectativa fantasmagórica.

Era exatamente às sete da manhã quando Anthony irrompeu nos corredores do primeiro andar da Escola Técnica Estadual José Humberto de Moura Cavalcanti, a ETE de Limoeiro. Ele segurava a alça de sua bolsa com demasiada força e concentrava-se em apenas uma única coisa: entrar o quanto antes na sua sala de aula. O máximo de atenção que se poderia ter dele neste momento é uma olhada rápida como cumprimento.

Tony estuda em tempo integral fazendo o ensino médio junto ao curso técnico de nutrição e dietética. Ele, a princípio, nunca imaginou que um dia estaria aprendendo sobre a bioquímica dos alimentos ou anatomia e fisiologia humana, mas ao entrar na ETE descobriu que havia feito uma escolha que mudou para sempre o curso da sua vida.

Este é o seu último ano na escola e, antes mesmo de chegar à metade, ele já parece esgotado.

Talvez o motivo fosse porque ele é monitor de química e tenha combinado com o professor da matéria de entregar um nivelamento da turma, no entanto não teve sequer tempo de parar nos últimos dias e fazer isso.

Dar conta de tudo era meio complicado, principalmente para ele que tinha várias outras coisas para fazer, como estudar para o Enem, treinar para o interclasse e seguir metodicamente sua rotina saudável de corrida logo de manhã cedo. Estava sobrecarregado, de fato.

Além do cansaço, seu humor estava terrível também por, obviamente, sua namorada Jasmine ter perdido o ônibus. Ela era a única pessoa que transformava suas manhãs detestáveis e enfadonhas em algo bom. Ver ela era tudo do que precisava.

Jasmine era do segundo ano A de desenvolvimento de sistemas, ou ADS. O namoro entre os dois era quase um milagre na escola devido à enorme rixa entre nutri e ds, principalmente o BNUTRI e o ADS. Digamos que em todos os projetos propostos pela escola, os alunos dos dois cursos – de qualquer ano – trocavam farpas.

Jasmine se dar bem com nutri era tão incomum que seus colegas de turma acreditavam que ela tinha cara e jeito do curso rival e escolheu ds porque errou na hora da inscrição. Ficar entre nós, esse boato tinha cara de verdade, mas ela nunca assumiu.

Um estudante de DS tem pelo menos uma dessas características: é tímido, ama jogos digitais, curte filmes de ação/universo de super-heróis, gosta de matemática, vive assistindo anime, lê mangá ou sabe jogar algum jogo de cassino. Com seus definidos cachos loiros, sua maneira única de andar, pele bronzeada e majestosa em falar com muitos, é claro que Jasmine não chega nem perto dos critérios citados, no máximo gosta de um anime.

Quando finalmente entrou na sala, Anthony ouviu Denilson, um dos colegas de turma, direcionar a ele:

— Você tá podre, hein? — Denilson toca no ombro de Tony, puxando-o dos seus próprios pensamentos de volta à realidade.

— E aí, Denis. Qual é a boa de hoje?

Ele devolve o cumprimento com um tapinha nas costas de Denilson e senta-se na sua cadeira situada na segunda fila.

— Se tu continuar com essa cara aí, só vai ter mal. É a namoradinha? Já te disse, cara, mulher é...

— Nem começa. Ela só perdeu a hora. — Anthony o cortou e revirou os olhos.

— Começa assim, depois é só ladeira abaixo. Por isso que prefiro deixar a vida me levar. — Murmurou e sentou-se na mesa da carteira mais próxima, cruzando os braços.

— Deixar te levar? Só te vejo perturbando as meninas, quase implorando pra elas ficarem contigo.

— Elas gostam, sabia? — Sua confissão faz Anthony gargalhar alto. — Mas, e aí, vai ter treino hoje? Vontade de jogar uma peladinha. — Perguntou mudando de assunto para que a novata que acabou de entrar na sala não ouça a conversa anterior.

— Vou ter que falar com a professora ainda. Você é doido.

Eles se calam por um momento, esperando que ela se sente no seu lugar do outro lado da sala para voltar ao assunto. Anna Maria foi transferida da ETE de Recife e quase não conversava desde que chegou à escola.

— Menina estranha. Uma vez fui trocar ideia com ela e se o arrependimento matasse eu já tava morto. — Denilson reclamou pela milionésima vez para Anthony do fora que levou da novata.

— Acho que tu assustasse ela.

— Eu não assusto nem a um bebê, quem dirá ela. — Ele disse apontando levemente com a cabeça na direção dela, que finge estar concentrada no celular. — Mas arruma lá pra nóis a pelada.

Não muito longe dali, o osso encontrava-se lançado dentro da bolsa preta de zíper enferrujado. Balançava de um lado para o outro, batendo ora no caderno, ora no estojo. Deveria continuar ali, intocável, até a tarde chegar.

trimmm!

Como se fosse um alerta de furacão, todos os alunos que estavam fora da sala atropelaram-se para dentro, com medo de que o professor de química Benedito, ou Bento, chegasse. Ele era bastante rígido quanto a horários.

Antes mesmo que Denilson pudesse descer da mesa em que estava sentado, o professor entrou na sala dando-o um carão.

— Denilson, desça já daí e sente-se no seu lugar.

— Tá bom, professor, já estou indo. — Ele se impulsionou e desceu da mesa.

Longe do foco de todo mundo, Anna Maria riu daquilo, mas parou logo em seguida quando seu olhar cruzou com o de Denilson. Imediatamente ela fechou a cara e olhou para o seu caderno, rabiscando a data.

— Que escuridão é essa? — O professor aciona o interruptor, porém nada acontece. Bento suspira insatisfeito. — Ia passar slide novo para vocês sobre a nomenclatura dos hidrocarbonetos, mas como não tem energia, vamos fazer uma atividade sobre eletroquímica e passarei um trabalho para a construção de uma pilha.

— Professor?!

— Diga, Marianna.

— Já podemos escolher o nosso grupo enquanto o senhor copia?

— Ah, tinha esquecido. Eu vou sortear.

— Mas prof...

— Nem pensem em questionar. Vi que vocês vivem em muitas panelinhas. Quero que vocês trabalhem com pessoas diferentes. Se sair seu grupinho, bem. Se não, boa sorte.

Os alunos suspiram, no entanto, nem pensam em protestar. Sabem bem que o pavio do professor Bento é curto.

Ele tinha pensado em fazer o sorteio no final da aula, mas como o alvoroço já havia sido instalado, decidiu deixar logo todos a par do seu grupo.

O professor Benedito pegou uma folha com a chamada e começou a recortar os nomes. Logo depois, colocou os papéis dobrados na mão e balançou. Pediu para Odair, um dos garotos mais inteligentes da sala, retirar um dos papeizinhos e ler para todos o nome escrito lá.

— Hum... Cássio. — Ele anuncia após desembrulhar.

Há um burburinho imenso na sala. Ninguém queria fazer trabalho com o garoto sorteado, a não ser os seus colegas mais próximos. Gostavam de Cássio enquanto ele era bom de matemática para fazer os deveres de todo mundo e só.

No resto do tempo, Cássio era caçoado por ser considerado "grandão" devido o seu elevado peso ou chamado de "calculadora" por sempre saber a resposta de qualquer conta, além de, claro, seu nome ser uma famosa marca de calculadoras científicas.

Sua postura era malamanhada. Aliás, essa era a forma como todos se referiam a ele numa conversa em que ele não estivesse presente.

— Silêncio! Pela mãe do guarda. Calem a boca. — Bento alterou um pouco a voz balançando a cabeça em negação. Não acreditava que logo nas primeiras aulas iria ter dor de cabeça.

— Quem vai ficar com Cássio é... Marianna.

Marianna do outro lado da sala soltou um muxoxo, mas não contestou.

Internamente, Anthony cruzou os dedos para não ser chamado. Não por conta de Cássio, ele era o menor dos seus problemas, mas sim por conta de Marianna.

Bem, digamos que ela é nada mais, nada menos que sua ex-namorada e Jasmine com certeza ficaria uma fera caso soubesse que ele teria de fazer um trabalho junto com ela.

Tony ficou tão perdido em pensamentos que assustou-se quando o professor chamou o seu nome.

— Anthony, vá escrevendo para mim o nome dos alunos e seus respectivos grupos no quadro, por favor.

— Certo.

Enquanto ele se encaminhou até o quadro, o professor sorteou mais uma pessoa e Anthony quase deixou o piloto cair ao ouvir seu nome pela segunda vez.

— Anthony, — Bento anunciou. — Você não morre nunca mais — e mostrou o papel com o nome dele escrito.

Anthony não encarou o resto da sala e se recompôs, escrevendo seu próprio nome logo abaixo ao de Marianna.

Para a felicidade do amigo de Anthony, ele foi o próximo sorteado. Mas logo essa felicidade transformou-se em tristeza ao a novata também ter sido colocada no mesmo grupo que ele.

Com isso, o grupo em que Anthony estava presente foi formado, causando medo em toda a turma de ter um grupo todo imperfeito como o protótipo que foi o dele.

Após a formação dos outros quintetos, o professor sorteou os temas do experimento de construção da pilha. O monitor de química ficou com uma pilha de latinha de refrigerante que desse para ligar uma calculadora.

— Anthony, preciso falar com você. — Bento chamou direcionando-se para fora da sala.

— O que foi, professor? — Anthony pergunta, já sabendo do que se trata pelo olhar do homem à sua frente, afinal, Benedito tinha tomado uma postura séria.

— Cadê seu relatório? Você sabe que para conseguir levar o projeto de iniciação científica adiante, precisa mostrar dados sobre como os seus colegas estão evoluindo nos encontros. Wilson quer resultados. — Ele faz uma pausa. — E eu também.

Nesse momento, Anthony sentiu-se culpado por sua irresponsabilidade.

— Eu vou entregar ao senhor, não se preocupe. Vou adiantar e mandar.

— Estarei aguardando.

Bento entrou na sala e Anthony fez o mesmo. Momentos depois, todos estavam copiando a atividade colocada no quadro. O calor começa a abater a todos, mesmo com o basculante aberto.

A sala encontrava-se em completo silêncio quando gritos de excitação advindos da sala vizinha — o 3ºADS — foram ouvidos.

Embora essa sala fosse considerada por Anthony como atentada, aquele alvoroço todo só podia ser por conta de três coisas:

1ª) Eles iriam para fora da escola assistir alguma apresentação ou fazer alguma viagem técnica, o que significava ir sem as turmas de nutrição (o que na opinião de Anthony era patético);

2ª) A farda do terceirão tinha chegado;

3ª) Vai largar de meio-dia.

Menos de um minuto depois, a coordenadora interrompeu a atividade ao entrar na sala e pedir atenção. Com isso, das hipóteses levantadas, apenas a última era a mais provável, o que já deixou todo mundo agitado antes mesmo do anúncio ser feito.

Largar de meio-dia numa sexta-feira era motivo de alegria para qualquer um que estudava integral, porém mais ainda para a ETE de Limoeiro devido às condições em que todos se encontravam de calor e falta de internet.

Embora esta última, em dias normais, não seja lá muito boa.

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Os dois corredores do primeiro andar, onde encontram-se as salas, estavam repletos de alunos amontoados e agoniados para almoçar. A coordenadora gritava por calma e ordem, enquanto todos falavam alto demais para ouvir.

Como nem Jasmine, nem Anthony iriam para o refeitório, seguiram pelas rampas para a entrada principal do colégio, a fim de aguardar a chegada do ônibus amarelo com uma faixa preta escrita "escola" em grafia de forma nas laterais.

Enquanto o transporte não chegava, o casal de namorados acomodou-se no chão, encostados em uma coluna azul — cor a qual a escola era majoritariamente pintada — e passou a conversar sobre a série preferida de Anthony, Breaking Bad, que ele já viu inteira três vezes.

— Sim, e o que aconteceu? — Jasmine incentiva o namorado a terminar de contar os acontecimentos do episódio macabro que ele havia reassistido.

— Para se livrar da culpa, Jesse jogou um ácido que corroeu toda a pele, osso e até a banheira e o teto de baixo. — Finaliza, com uma penumbra fantasmagórica que logo se desfaz. — A casa ficou uma maimota.

— Que bizarro! — A garota exclamou.

— E instigante. Sabe, eu torço pelo Walter White. Ele quer garantir um futuro para a família e não quer decepcioná-los por conta de um câncer.

— Nem que para isso ele tenha que fabricar metanfetamina?

— Eu passo pano para ele tranquilo, independentemente dessa condição. — Deu de ombros.

— Eu não passaria, está destruindo o futuro de muitas pessoas que irão consumir. — Negou com a cabeça e cruzou os braços.

— Mas ele não incentiva ninguém a isso, só fabrica. — Argumentou na defensiva do personagem da série.

— Mesmo assim, Tony. É errado!

— Se você assistisse, mudaria de opinião. — Replicou o garoto, ajeitando-se no seu lugar.

— Por que eu deveria assistir se você já conta a série toda, com todos os spoilers?

— Mas você veria em todos os ângulos e entenderia Walter White, com certeza, Minnie.

— Você só bajula ele e ainda não compreendo, quem dirá se eu visse. E, como já disse outra vez, esse não é o meu tipo de série. — Olha para as próprias unhas, retirando vestígio de pó de borracha que grudou nas brechas entre os dedos. Demonstra pouco interesse em continuar o assunto.

— Ok. Eu posso pelo menos torcer por ele em paz?

— Claro, fique à vontade, Whitezinho. — Ela sorriu do apelido que acabou de inventar para o seu namorado por ele defender com unhas e dentes o tal personagem quimérico.

— Você não disse isso, não é?

— Oh, sim. Pode apostar que eu disse. — Ela sorriu novamente, desta vez com um ar perverso.

— Minnie... — Ele murmurou o apelido dela e preparou-se para descarregar um turbilhão de cócegas na namorada até ela não aguentar mais.

— Ah, não! — Ela percebe seu plano, mas, antes que pudesse escapar, ele leva as mãos ao seu pescoço e à barriga. Um arrepio percorre seu corpo, e seus sentidos parecem entorpecidos apenas com um toque dele. Ela se contorce no chão, rindo até chorar. Era louco como ele sabia desde a primeira vez onde o seu toque causava a Jasmine um ataque de risos, a conexão dos dois era vibrante. — Ei, para! Eu... não aguento mais rir. — Ela tenta se defender das mãos de Anthony sem muito sucesso.

Não dura muito tempo até que ouvem seus nomes sendo chamados e logo as cócegas cessam. Ambos olham para frente rapidamente. O diretor Wilson está, no mínimo, parecendo com aqueles seguranças de artista, com rosto impetuoso e postura no mesmo tom. As suas vestimentas também não ajudam, sendo totalmente pretas.

— Os dois, venham comigo. — Chama com a mão direita e os dois levantam-se em um pulo. Alguns alunos que já haviam almoçado observam a cena e cochicham.





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Após anos sem escrever nada, estou de volta pela livre e espontânea pressão da minha fiel leitora. Eu tinha prometido a ela que iria postar essa história há anos, mas nunca cheguei a cumprir minha promessa (até esse presente momento). 

Essa é uma história muito importante para mim. Penso nela desde 2021 e está sendo empolgante postá-la aqui. 

Gostaria de avisar que grande parte das expressões utilizadas é típica do interior nordestino, visto que a história se passa em uma cidade do interior pernambucano. Logo, há uma pitada de informalidade, já que busco uma ambientação até mesmo em relação às falas.

Bem, espero que aproveitem. Até mais <3

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